Guterres diz que guerra ameaça humanidade mas evita condenações à Rússia

(Agência Lusa)

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou hoje na abertura do debate da Assembleia-Geral que a guerra na Ucrânia é uma “ameaça ao futuro da humanidade”, mas evitou qualquer condenação direta à Rússia.

Num discurso sobre os grandes problemas que afetam a ordem mundial, era esperado que Guterres colocasse o foco na situação na Ucrânia e o secretário-geral da ONU preferiu assinalar possíveis entendimentos para resolver o conflito ao apontar o acordo, envolvendo as Nações Unidas e a Turquia, para escoar cereais acumulados nos portos ucranianos desde o início da guerra.

“Quando nos reunimos num mundo repleto de turbulências, uma imagem de promessa e esperança vem à minha mente: o navio ‘Brave Commander’. Ele navegou no Mar Negro com a bandeira da ONU hasteada orgulhosamente. Por um lado, o que vocês veem é uma embarcação como qualquer outra navegando pelos mares. Mas olhem mais de perto. Na sua essência, este navio é um símbolo do que o mundo pode alcançar quando agimos juntos”, disse Guterres na abertura do seu discurso.

“Está carregado com cereais ucranianos para o povo do Corno de África. Ele navegou por uma zona de guerra — guiado pelas próprias partes do conflito — como parte de uma iniciativa abrangente sem precedentes para obter mais alimentos e fertilizantes (…). A Ucrânia e a Federação Russa — com o apoio da Turquia — convergiram para que isso acontecesse, apesar das enormes complexidades, dos opositores e até do inferno da guerra. Alguns podem chamar de milagre no mar. Na verdade, é a diplomacia multilateral em ação”, observou.

Frisando que a guerra desencadeou uma destruição generalizada, com violações massivas dos direitos humanos e do direito internacional humanitário, Guterres avaliou que os relatórios sobre cemitérios em Izium, cidade na região de Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, são “extremamente preocupantes”.

De acordo com as autoridades locais, foram descobertas 443 sepulturas em Izium, incluindo uma que continha os corpos de 17 soldados ucranianos e uma inscrição que dizia “Exército ucraniano, 17 pessoas. Izium, morgue”.

“A luta custou milhares de vidas. Milhões foram deslocados. Milhares de milhões em todo o mundo foram afetados. Estamos a ver a ameaça de divisões perigosas entre o ocidente e o sul. Os riscos para a paz e a segurança globais são imensos. Devemos continuar a trabalhar pela paz de acordo com a Carta das Nações Unidas e o direito internacional”, apelou.

Contudo, na visão do ex-primeiro-ministro português, a comunidade internacional “não está pronta ou disposta a enfrentar os grandes desafios dramáticos da nossa era”, “crises que ameaçam o próprio futuro da humanidade e o destino do nosso planeta, como a guerra na Ucrânia e a multiplicação de conflitos em todo o mundo”.

Ainda sobre as consequência diretas do conflito na Ucrânia, o líder das Nações Unidas sublinhou a necessidade de o mundo se unir para aliviar a crise alimentar global e “abordar urgentemente” a crise do mercado global de fertilizantes, apelando à “remoção de obstáculos” à exportação de fertilizantes russos.

“Este ano, o mundo tem comida suficiente, o problema é a distribuição. Mas se o mercado de fertilizantes não estiver estabilizado, o problema do próximo ano pode ser o próprio abastecimento de alimentos. (…) É essencial continuar a remover todos os obstáculos remanescentes à exportação de fertilizantes russos e seus ingredientes, incluindo amoníaco”, afirmou

“Esses produtos não estão sujeitos a sanções — e estamos a avançar na eliminação dos efeitos indiretos. Outra grande preocupação é o impacto dos altos preços do gás na produção de fertilizantes nitrogenados. Isso também deve ser abordado com seriedade. Sem ação agora, a escassez global de fertilizantes irá transformar-se rapidamente numa escassez global de alimentos”, alertou.

Nas palavras de Guterres, “um inverno de descontentamento global está no horizonte” e a humanidade está “presa numa colossal disfunção global”.

O líder das Nações Unidas aludiu à necessidade de criação de mecanismos de diálogo para ultrapassar as divisões.

“É por isso que delineei elementos de uma nova Agenda para a Paz no meu relatório sobre a ‘Nossa Agenda Comum’. Estamos empenhados em aproveitar ao máximo todas as ferramentas diplomáticas para a solução pacífica de disputas, conforme estabelecido na Carta das Nações Unidas”, anunciou.

Nesse sentido, Guterres apelou à liderança e a participação das mulheres em todo o processo, e à prevenção e construção da paz.

“Isso significa fortalecer a previsão estratégica, antecipar pontos de conflito que podem explodir em violência e enfrentar ameaças emergentes representadas pela guerra cibernética e armas autónomas letais. Significa expandir o papel dos grupos regionais, fortalecer a manutenção da paz, intensificar o desarmamento e a não-proliferação, prevenir e combater o terrorismo e garantir a responsabilização. E significa reconhecer os direitos humanos como fundamentais para a prevenção”, sublinhou.

O debate de alto nível da 77.ª sessão da Assembleia-Geral da ONU arrancou hoje, em Nova Iorque, com a presença de chefes de Estado e de Governo de todo o mundo, e irá prolongar-se até ao final da semana, com a guerra da Rússia na Ucrânia sob foco.

Espera-se que as potências ocidentais usem os seus discursos na ONU para reafirmem o seu apoio a Kiev e que procurem uma maior pressão sobre o Kremlin da parte de países com posições vagas, nomeadamente os africanos.

Por outro lado, espera-se que a Rússia utilize este evento para tentar minar a narrativa dos Estados Unidos e da Europa sobre a guerra.

Na semana passada, após um telefonema com o Presidente russo, Vladimir Putin, Guterres já havia admitido que um acordo de paz na Ucrânia “permanece muito distante”, visão que se manifestou no discurso de hoje.

Apesar de Guterres não ter usado o seu discurso de hoje para condenar as ações russas, é esperado que faça uma declaração mais incisiva durante uma reunião do Conselho de Segurança sobre a guerra agendada para quarta-feira e para a qual foram convidados os ministros das Relações Exteriores da Rússia e da Ucrânia.

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